Monitor de Estresse Térmico: Critério de Estabilização
Por Gustavo Rezende de Souza
Higienista Ocupacional Certificado – HOC 0117, especialista registrado pela AIHA em Exposure Decision Analysis (EDA Registry ID# 296033), engenheiro de segurança do trabalho, engenheiro de produção, bacharel em ciência e tecnologia com ênfase em bioquímica, Professor de HO na USP e membro do conselho técnico da ABHO.
Introdução
Meu caro, você posiciona o monitor de estresse térmico, liga o equipamento e já quer começar a medir. Parece simples… mas aqui está um detalhe que derruba muita avaliação técnica:
o conjunto de sensores já está estabilizado?
A resposta não pode ser baseada em “tempo de espera”. Ela precisa seguir um critério técnico objetivo. E ignorar isso pode comprometer completamente a validade da medição — inclusive em perícia.
Índice
- O conjunto de sensores (TG, TBN e TBS)
- Critério técnico de estabilização
- Exemplo prático
- Os famosos 25 minutos
- Protocolo de campo
- Importância pericial
- Conclusão
O conjunto de sensores: TG, TBN e TBS
O monitor de estresse térmico não é um sensor único. Ele é um sistema composto por sensores com comportamentos distintos:
- TG (Globo negro): responde à radiação térmica e tem alta inércia (mais lento).
- TBN (Bulbo úmido natural): responde à evaporação e umidade.
- TBS (Bulbo seco): utilizado em ambientes externos com carga solar.
Cada sensor converge para o equilíbrio térmico em ritmos diferentes. Isso significa que um sensor estabilizado não garante que os demais estejam.
A medição só pode começar quando todos os sensores atingirem o critério simultaneamente.
Critério técnico de estabilização
O critério correto é simples, mas exige disciplina:
- Registrar leituras minuto a minuto;
- Coletar no mínimo 5 leituras consecutivas;
- Calcular a diferença entre o valor máximo e mínimo de cada sensor;
- Essa diferença deve ser ≤ 0,4 °C.
E atenção: o critério não é entre leituras consecutivas — é a amplitude total dentro do conjunto de leituras.
Se um único sensor não atender ao critério, o conjunto não está estabilizado.
Exemplo prático de estabilização
Exemplo ilustrativo — Bloco 1 (t = 1 a 5 min): TG ainda não estabilizado
Sensor | t = 1min | t = 2min | t = 3min | t = 4min | t = 5min | Min | Max | Δ (°C) | Status |
TG (°C) | 32,0 | 32,3 | 32,5 | 32,6 | 32,6 | 32,0 | 32,6 | 0,6 | Instável |
TBN (°C) | 28,1 | 28,2 | 28,2 | 28,3 | 28,3 | 28,1 | 28,3 | 0,2 | OK |
TBS (°C) | 34,0 | 34,0 | 34,1 | 34,1 | 34,1 | 34,0 | 34,1 | 0,1 | OK |
| Conjunto | NÃO ESTABILIZADO |
O TG apresenta amplitude de 0,6 °C — superior ao limite de 0,4 °C. O conjunto ainda não está apto para medição.
No campo, é comum observar o seguinte cenário:
- TBN estabiliza rapidamente;
- TBS também atinge estabilidade cedo;
- Mas o TG continua variando.
Enquanto o TG apresentar variação acima de 0,4 °C, a medição não pode ser iniciada.
Somente quando todos os sensores apresentarem amplitude dentro do limite, o conjunto está apto.
Exemplo ilustrativo — Bloco 2 (t = 6 a 10 min): critério atingido
Sensor | t = 6min | t = 7min | t = 8min | t = 9min | t =10min | Min | Max | Δ (°C) | Status |
TG (°C) | 32,6 | 32,7 | 32,7 | 32,7 | 32,8 | 32,6 | 32,8 | 0,2 | OK |
TBN (°C) | 28,3 | 28,3 | 28,4 | 28,4 | 28,4 | 28,3 | 28,4 | 0,1 | OK |
TBS (°C) | 34,1 | 34,1 | 34,1 | 34,1 | 34,1 | 34,1 | 34,1 | 0,0 | OK |
| Conjunto | ESTABILIZADO ✓ |
Os famosos 25 minutos: mito ou referência?
Muita gente usa “25 minutos” como tempo padrão de estabilização.
Sim, esse número tem fundamento — principalmente por causa da inércia do globo negro. Mas aqui está o ponto:
não é uma regra.
O tempo de estabilização depende de:
- Diferença térmica inicial;
- Velocidade do ar;
- Carga radiante;
- Características do equipamento.
Ou seja: pode estabilizar antes… ou depois.
Quem manda não é o relógio — é o critério técnico.
Protocolo correto de campo
Para garantir validade técnica e jurídica, siga este procedimento:
- Instale o equipamento no ponto definitivo;
- Registre leituras minuto a minuto;
- Após 5 leituras, calcule a amplitude;
- Se não atender, continue registrando;
- Reavalie sempre com as 5 leituras mais recentes;
- Documente toda a sequência.
Esse registro não é burocracia. É evidência técnica.
Por que isso é crítico em perícia?
Quando a avaliação entra em discussão judicial, essa pergunta sempre aparece:
“O equipamento estava estabilizado?”
Se você não tiver registro, o problema não é pequeno:
- O laudo pode ser questionado;
- A medição pode ser invalidada;
- Toda a conclusão pode ser comprometida.
A estabilização não documentada é uma das falhas mais exploradas em perícia.
Conclusão
A validade de uma avaliação de estresse térmico começa antes do IBUTG.
Ela começa na estabilização do conjunto.
O critério é claro:
Amplitude ≤ 0,4 °C em todos os sensores, com no mínimo 5 leituras consecutivas.
O tempo é variável. O método não.
E é exatamente isso que separa uma medição válida de um dado questionável, meu caro.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. Posso usar tempo fixo para estabilização?
Não. O critério válido é técnico (amplitude ≤ 0,4 °C), não tempo.
2. Se um sensor estabilizou, já posso medir?
Não. Todos os sensores precisam atender ao critério simultaneamente.
3. O globo negro sempre demora mais?
Na maioria dos casos sim, devido à sua maior inércia térmica.
4. Preciso registrar a estabilização?
Sim. Isso é essencial para validação técnica e defesa pericial.
5. Posso começar a medição enquanto estabiliza?
Não. Isso compromete a validade dos dados coletados.


