Saindo do arcaico texto do anexo 9 da NR 15 e avaliando o frio com a base metodológica do IREQ

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Prof Gustavo Rezende

Saindo do arcaico texto do anexo 9 da NR 15 e avaliando o frio com a base metodológica do IREQ

Saindo do Anexo 9: avaliando o frio com o IREQ

Por Gustavo Rezende de Souza
Higienista Ocupacional Certificado – HOC 0117, especialista registrado pela AIHA em Exposure Decision Analysis (EDA Registry ID# 296033), engenheiro de segurança do trabalho, engenheiro de produção, bacharel em ciência e tecnologia com ênfase em bioquímica, Professor de HO na USP e membro do conselho técnico da ABHO.


Introdução

Meus caros, quando o assunto é frio ocupacional, ainda vemos, no dia a dia, uma dependência quase automática do texto enxuto e conceitualmente limitado do Anexo 9 da NR-15. Esse enquadramento puramente jurídico, sem uma base fisiológica e metodológica consistente, pode levar tanto a subavaliações quanto a exageros na caracterização de risco e na definição de medidas de controle.

Em novembro, o time da GV – Segurança e Saúde Ocupacional conduziu uma avaliação de exposição ao frio utilizando o método IREQ, que se consolidou internacionalmente como a principal referência para análise de estresse por frio. A partir dessa experiência prática, este texto busca mostrar por que precisamos, urgentemente, sair da leitura literal e arcaica do Anexo 9 e migrar para uma abordagem baseada na ISO 11079, que integra ambiente, fisiologia humana e organização do trabalho em um modelo coerente de gestão de risco térmico.

Índice

 

frio ocupacional

1. As limitações do Anexo 9 da NR-15 diante do frio ocupacional

O Anexo 9 da NR-15 trata da exposição ao frio de forma bastante restrita, focando essencialmente em ambientes artificialmente frios e critérios descritivos genéricos. Não há, no texto normativo, um modelo que permita integrar de forma quantitativa as variáveis ambientais, o tipo de atividade física, o tempo de exposição e as características das vestimentas.

Na prática, isso abre espaço para avaliações simplistas, do tipo “ambiente frio = insalubridade”, sem considerar se as vestimentas são adequadas, se a organização do trabalho inclui pausas em áreas aquecidas ou se o metabolismo do trabalhador é compatível com o cenário avaliado. É exatamente esse vazio metodológico que a ISO 11079 vem preencher com o conceito de IREQ (Isolamento Térmico Requerido da Vestimenta).

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A GV Segurança e Saúde Ocupacional aplica a ISO 11079 (IREQ) em avaliações de frio ocupacional, integrando ambiente, fisiologia e vestimentas para decisões realmente consistentes.

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2. Fundamentos do método IREQ na ISO 11079

No trabalho realizado em novembro, nossa equipe aplicou o método IREQ em um cenário real de exposição ocupacional ao frio. Esse tipo de avaliação é um dos desafios mais complexos da higiene ocupacional porque exige integrar, ao mesmo tempo, variáveis ambientais e respostas fisiológicas do organismo humano.

O IREQ (Required Clothing Insulation) é padronizado pela ISO 11079:2007 – Ergonomia do ambiente térmico, que trata da determinação do estresse por frio a partir do isolamento térmico requerido da vestimenta. O mérito central dessa abordagem está na capacidade de quantificar objetivamente as exigências térmicas do ambiente, estabelecendo com precisão o nível de isolamento que a roupa deve oferecer para preservar o equilíbrio térmico do trabalhador conforme sua atividade física.

Em termos conceituais, o método IREQ está ancorado nos princípios de termorregulação e balanço energético do organismo humano. O corpo procura manter sua temperatura central dentro de uma faixa estreita, ajustando fluxo sanguíneo, sudorese, vasoconstrição periférica e taxa metabólica. Em ambientes frios, esse balanço é ameaçado, e o papel da vestimenta passa a ser reduzir as perdas de calor por condução, convecção, radiação e, em certos casos, evaporação.

3. Dados necessários para aplicação do IREQ

Para aplicar o método IREQ com rigor, o profissional precisa coletar um conjunto específico de dados ambientais e ocupacionais. Entre eles, destacam-se:

  • Temperatura do ar: medida com termômetro de bulbo seco, normalmente em pontos representativos da zona de respiração;
  • Velocidade do vento ou do ar: mensurada com anemômetro, fundamental porque o vento aumenta as perdas por convecção (efeito wind chill);
  • Umidade relativa do ar: determinada por psicrômetro ou higrômetro, influenciando a sensação térmica e a troca de calor evaporativa;
  • Temperatura radiante média: quando pertinente, especialmente em câmaras frias ou ambientes com superfícies muito frias que contribuem para perdas por radiação;
  • Taxa metabólica: correspondente à atividade desempenhada pelo trabalhador, expressa em W/m² ou em met, determinada por tabelas de referência ou por análise mais refinada da tarefa.

A taxa metabólica é um ponto crítico: subestimar o esforço físico leva a conclusões equivocadas sobre a necessidade de isolamento; superestimar gera recomendações de vestimenta exageradas, podendo comprometer a mobilidade e a produtividade.

A partir desses parâmetros, a ISO 11079 permite calcular o isolamento térmico requerido da vestimenta para evitar tanto a hipotermia quanto o desconforto térmico acentuado, considerando o tipo de tarefa, a duração da exposição e o microclima específico.

4. IREQ mínimo, IREQ neutro e tempo limite de exposição

A metodologia distingue dois patamares de IREQ, associados a objetivos de proteção diferentes:

  • IREQ mínimo: isolamento necessário para sustentar o equilíbrio térmico corporal em exposições prolongadas, sem que a temperatura central caia a níveis perigosos. Ele não considera, de forma plena, o resfriamento localizado das extremidades (mãos, pés, face);
  • IREQ neutro: isolamento requerido para garantir conforto térmico, evitando tanto o resfriamento central quanto o periférico. É um patamar mais protetivo e, em geral, mais conservador.

Ambos os valores são expressos em clo, unidade de isolamento térmico em que 1 clo equivale a 0,155 m²·K/W. Essa unidade facilita a comparação com especificações de vestimentas, tabelas normativas e ensaios de laboratório.

A norma também contempla o cálculo do tempo limite de exposição para situações em que o isolamento disponível (da roupa realmente usada) é inferior ao IREQ calculado. Nesses casos, a solução não é “proibir” a atividade, mas delimitar tempos seguros de permanência, combinados com pausas em ambientes aquecidos e outras medidas organizacionais.

5. Da teoria à prática: compatibilizando IREQ e vestimentas

A transição do cálculo teórico para a implementação prática exige um passo essencial: comparar o IREQ calculado com o isolamento real fornecido pelas vestimentas em uso. Essa informação pode ser obtida em:

  • catálogos técnicos de fabricantes de EPIs e vestimentas térmicas;
  • tabelas consolidadas na literatura ergonômica e normas técnicas;
  • resultados de ensaios específicos de isolamento térmico em laboratório.

Quando se identifica um déficit de isolamento, é imperativo adotar medidas de controle, tais como:

  • limitação do tempo de exposição em ambiente frio;
  • inclusão de pausas programadas em áreas aquecidas;
  • fornecimento de vestimentas com maior capacidade isolante (camadas adicionais, materiais avançados, proteção específica de extremidades);
  • ajustes nas condições ambientais, quando tecnicamente viável (cortinas de ar, enclausuramento parcial, redução de infiltração de vento).

O sucesso dessas intervenções depende de monitoramento contínuo e reavaliações periódicas, especialmente em atividades sazonais ou com variações importantes de temperatura ao longo do turno.

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A equipe da GV Segurança e Saúde Ocupacional auxilia na análise de IREQ, seleção de vestimentas e definição de limites de exposição, conectando laudos técnicos ao PGR e ao dia a dia operacional.

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6. IREQ, PGR e gestão integrada do risco por frio

O método IREQ é, em síntese, uma ferramenta indispensável para a gestão de riscos térmicos em ambientes ocupacionais frios, porque integra de forma coerente dimensões fisiológicas, ambientais e organizacionais. Sua aplicação criteriosa vai muito além do simples “cumprimento” formal do Anexo 9, alcançando o objetivo central de proteger efetivamente a saúde dos trabalhadores.

Para nós, aqui no Brasil, o cenário é claro: enquanto o Anexo 9 da NR-15 aborda o frio de maneira restrita e descritiva, a ISO 11079 oferece uma metodologia cientificamente fundamentada e reconhecida internacionalmente, que preenche essa lacuna e viabiliza avaliações verdadeiramente abrangentes, especialmente quando pensamos na gestão de riscos no âmbito do PGR e na articulação com programas de ergonomia e medicina ocupacional.

Empresas que atuam com câmaras frias, logística de alimentos, frigoríficos, armazenagem congelada, operações em altitudes ou atividades a céu aberto em regiões frias têm muito a ganhar ao substituir decisões baseadas apenas no texto da NR-15 por análises estruturadas a partir do IREQ.

7. Conclusão

Deixar para trás uma leitura simplista e “encaixotada” do Anexo 9 da NR-15 é um passo necessário para quem quer fazer higiene ocupacional séria em ambientes frios. O método IREQ, conforme definido na ISO 11079, oferece o arcabouço que faltava: ele integra medições ambientais, metabolismo, tempo de exposição e isolamento das vestimentas em um modelo de decisão tecnicamente sólido.

Quando aplicamos o IREQ de forma criteriosa, deixamos de discutir apenas se “faz frio” ou não e passamos a responder perguntas muito mais relevantes, como: “o isolamento da vestimenta está adequado a esta tarefa?”, “por quanto tempo é seguro permanecer nesse ambiente?”, “quais ajustes organizacionais e de EPI são necessários para manter a saúde e o desempenho dos trabalhadores?”.

É nesse ponto que a avaliação de frio deixa de ser um exercício formal de enquadramento normativo e se torna, de fato, uma ferramenta de gestão de risco, alinhada ao PGR e às melhores práticas de ergonomia térmica. E, claro, quando a análise é bem-feita, ganha o trabalhador, ganha a empresa e ganha a segurança jurídica de todos os envolvidos.

FAQ – Frio ocupacional, Anexo 9 e IREQ

1. O Anexo 9 da NR-15 é suficiente para avaliar o risco de frio ocupacional?

O Anexo 9 fornece um enquadramento básico, mas não oferece metodologia quantitativa para integrar temperatura, vento, umidade, metabolismo e vestimentas. Para avaliações mais robustas, especialmente no contexto do PGR e de decisões sobre pausas, EPIs e limites de exposição, o método IREQ da ISO 11079 é muito mais completo e adequado.

2. O que é exatamente o IREQ?

IREQ é a sigla para Required Clothing Insulation, ou isolamento térmico requerido da vestimenta. Trata-se de um índice calculado pela ISO 11079 que indica qual deve ser o isolamento da roupa (em clo) para que o trabalhador mantenha o equilíbrio térmico em um determinado ambiente frio, considerando sua atividade física e o tempo de exposição.

3. Qual a diferença entre IREQ mínimo e IREQ neutro?

O IREQ mínimo corresponde ao isolamento necessário para evitar queda perigosa da temperatura central do corpo em exposições prolongadas. Já o IREQ neutro é mais conservador: busca garantir conforto térmico, prevenindo também o resfriamento de extremidades e desconforto acentuado. Na prática, o IREQ neutro tende a demandar vestimentas mais isolantes.

4. Como o método IREQ se conecta ao PGR?

O IREQ fornece a base numérica para decisões de controle no PGR: definição de vestimentas adequadas, limitação de tempo de exposição, necessidade de pausas em ambientes aquecidos e ajustes organizacionais. Em vez de depender apenas de descrições genéricas, o PGR passa a incorporar critérios fisiológicos e ambientais quantificados.

5. A GV Segurança e Saúde Ocupacional aplica o IREQ em avaliações de campo?

Sim. A GV realiza medições ambientais, estima taxas metabólicas, aplica a metodologia da ISO 11079 e ajuda as empresas a traduzirem os resultados em ações concretas no PGR, na seleção de EPIs e na estruturação de programas de prevenção ao estresse por frio.

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